Em um mundo cada vez mais digital, o uso de celulares, tablets e outros dispositivos eletrônicos se tornou comum na rotina das crianças. Apesar das oportunidades de aprendizado e entretenimento que a tecnologia proporciona, o uso excessivo desses dispositivos gera preocupações entre profissionais da saúde e da educação.
A infância é uma fase crucial para o desenvolvimento cerebral, emocional, social e cognitivo. Durante esse período, habilidades como atenção, memória, linguagem, criatividade e autorregulação emocional são formadas. Essas competências se desenvolvem principalmente por meio de experiências cotidianas, brincadeiras, interação social e exploração do ambiente.
Consequências da substituição das brincadeiras por telas
Na visão psicopedagógica, aprender vai além da simples aquisição de conhecimentos escolares. A aprendizagem envolve processos cognitivos, emocionais e sociais que precisam ser continuamente estimulados. Quando as crianças passam longos períodos em frente a dispositivos eletrônicos, atividades essenciais, como brincar, desenhar e praticar esportes, podem ser prejudicadas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria, em seu manual “Menos Telas, Mais Saúde”, atualizado em 2024, alerta para os riscos do uso excessivo de tecnologia, que incluem problemas relacionados ao sono, aprendizado e comportamento. Contudo, é importante ressaltar que essas dificuldades não podem ser atribuídas apenas às telas, pois o desenvolvimento infantil é influenciado por diversos fatores.
Desenvolvimento da tolerância à frustração
Outro ponto relevante é a constante oferta de estímulos e recompensas imediatas no ambiente digital. Com um simples toque, a criança pode mudar de vídeo ou jogo, mas a vida real exige habilidades que nem sempre são exercitadas nessas interações. Aprender a esperar a vez, aceitar a derrota e lidar com frustrações são experiências fundamentais para o desenvolvimento das funções executivas, que incluem controle inibitório e regulação emocional.
Quando o celular se torna a principal ferramenta para acalmar a criança em momentos de desconforto, as oportunidades de aprendizado emocional podem ser limitadas.
Tempo de tela recomendado
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites de tempo de tela de acordo com a faixa etária:
- Menores de 2 anos: evitar a exposição a telas, mesmo que de forma passiva.
- De 2 a 5 anos: no máximo uma hora diária, com supervisão.
- De 6 a 10 anos: entre uma e duas horas diárias, com acompanhamento.
- De 11 a 18 anos: limitar a duas ou três horas diárias, priorizando sono e convivência familiar.
Essas orientações devem ser interpretadas considerando o propósito do uso, a qualidade dos conteúdos e as necessidades individuais, sem transformar o tempo máximo em uma meta diária.
Importância da participação familiar
Construir hábitos digitais saudáveis requer a participação da família. Não adianta estabelecer limites para as crianças se os adultos também estão conectados durante refeições e momentos de convivência. Criar espaços livres de dispositivos, incentivar a leitura e promover atividades ao ar livre são medidas que favorecem o desenvolvimento infantil.
Mais do que proibir o uso de tecnologia, é essencial ensinar a utilizá-la de forma equilibrada e consciente.
Conexão humana versus digital
A tecnologia pode ser uma ferramenta educativa valiosa quando usada de maneira intencional e adequada à idade. Contudo, nenhum aplicativo substitui a riqueza de uma brincadeira compartilhada ou uma conversa acolhedora. As crianças precisam correr, imaginar, experimentar e descobrir suas capacidades.
Reduzir o tempo em frente às telas não significa afastar as crianças do futuro, mas sim garantir que vivam plenamente o presente. A infância deve ser vivida, sentida e explorada, não apenas assistida através de uma tela.
Referências científicas
Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Menos Telas Mais Saúde – Atualização 2024. Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital. Manual de Orientação nº 163, agosto de 2024.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Guidelines on Physical Activity, Sedentary Behaviour and Sleep for Children Under 5 Years of Age. Genebra, 2019.
Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Sociedade Brasileira de Pediatria atualiza orientações para crianças e adolescentes na era digital. Agosto de 2024. Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023.
Nathanya Moraes
Psicopedagoga Clínica
Psicoeducação parental Neuroeducação
Fonte: portalclubenews.com