A trágica ocorrência em Itumbiara (GO), onde o secretário de Governo Thales Machado tirou a vida dos dois filhos e, em seguida, a própria, reacendeu no país o debate sobre um tipo de agressão pouco conhecido, mas devastador: a violência vicária. Esse fenômeno acontece quando o agressor atinge filhos ou pessoas próximas com o objetivo de punir emocionalmente a mulher, configurando um desdobramento da violência de gênero. Para entender a complexidade do tema, a socióloga Marcela Castro, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (NUPEC-UFPI), oferece esclarecimentos cruciais.
O que é violência vicária?
Marcela Castro explica que a violência vicária é um desdobramento direto da violência doméstica, onde o agressor usa terceiros – geralmente os filhos, mas também parentes ou até animais de estimação – como instrumento de controle e punição à mulher. Segundo a especialista, o agressor se vale de relações de poder para transferir a culpa de seus atos para a vítima, destruindo os pilares emocionais da mulher sobrevivente. “Traz efeitos físicos, psicológicos, moral, o sentimento carregado pela culpa e o julgamento social. Na condição de vítima, a mulher torna-se a culpada”, ressalta a pesquisadora.
Filhos como instrumento de vingança
As crianças, neste cenário, são vítimas diretas, embora muitas vezes invisibilizadas. Marcela Castro destaca que os filhos representam o elo de amor e proteção da mulher. O agressor, ciente disso, mira justamente nesse ponto de fragilidade, rompendo a ligação afetiva para ferir a mulher profundamente e responsabilizá-la pelo sofrimento ou morte de seus próprios filhos. Essa dinâmica se apoia na cultura de dominação masculina e na lógica de posse, estruturas patriarcais que persistem em muitas relações no Brasil.
Desafios e caminhos para o enfrentamento
O Brasil ainda enfrenta lacunas significativas na identificação e no combate à violência vicária. “Ainda não estamos preparados”, afirma Marcela, mencionando a tramitação de um projeto no Congresso para incluir a violência vicária na Lei Maria da Penha, mas enfatizando a necessidade de mais debate e diretrizes claras para a rede de proteção. Para a socióloga, a transformação é um processo longo, mas possível, exigindo educação, vontade política, fortalecimento da rede de apoio e capacitação de profissionais da saúde, segurança e justiça. A sociedade precisa se mobilizar para evitar a repetição de tragédias.
O Instituto Maria da Penha reforça que a violência vicária não é uma exceção e confirma a existência de diretrizes nacionais, reconhecendo-a como forma de violência de gênero. Entre as manifestações mais comuns estão: ameaças envolvendo os filhos, manipulação emocional, falsas acusações, afastamento forçado da convivência e até sequestro ou retenção ilegal de crianças.
Manter-se informado sobre a violência vicária e apoiar as iniciativas de combate é fundamental.
Fonte: https://portalclubenews.com