O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deu um passo significativo ao solicitar a abertura de um inquérito policial para investigar um alegado esquema de venda irregular de ingressos no camarote do São Paulo Futebol Clube. A decisão do órgão aponta para a existência de indícios que enquadram a situação na esfera criminal, elevando o caso de uma questão interna do clube para uma investigação policial formal. As suspeitas recaem sobre a exploração clandestina de camarotes no Estádio do MorumBis e tentativas de coação no curso de um processo judicial. Este desenvolvimento marca uma nova fase para as apurações, que já incluíam sindicâncias internas do clube e a análise pela Comissão de Ética do Conselho Deliberativo. A palavra-chave “esquema de venda de ingressos” ganha destaque, revelando a gravidade das acusações e o potencial impacto na imagem da instituição esportiva.
A investigação do Ministério Público
A solicitação de inquérito policial por parte do MP-SP foi desencadeada por uma “notícia-fato” protocolada pela Frente Democrática em Defesa do São Paulo, um grupo que se dedica à fiscalização e transparência das atividades do clube. O documento original apresentado ao Ministério Público detalhava uma série de irregularidades graves, incluindo a exploração clandestina de camarotes dentro do estádio, a obtenção de vantagens econômicas de maneira indevida por indivíduos ligados à diretoria, e tentativas de coação de pessoas envolvidas no processo judicial que trouxe o caso à tona.
No entanto, o MP-SP, em sua requisição inicial para a abertura do inquérito, priorizou a apuração de duas das principais suspeitas levantadas. A primeira delas refere-se à exploração clandestina do camarote, um ato que pode configurar corrupção privada no esporte, dado o envolvimento de agentes ligados ao clube em uma atividade comercial não autorizada e potencialmente ilícita. A segunda linha de investigação foca na tentativa de coação no curso do processo, o que significa pressionar ou intimidar partes envolvidas em um litígio judicial para alterar o rumo da ação ou forçar sua retirada.
Antes da intervenção do Ministério Público, o próprio São Paulo Futebol Clube já havia tomado iniciativas para investigar as alegações. Duas sindicâncias foram abertas: uma de caráter interno, conduzida pela administração do clube, e outra de forma independente, sob a responsabilidade de dois escritórios de auditoria externos. Além disso, o caso foi encaminhado para a Comissão de Ética do Conselho Deliberativo, órgão responsável por zelar pela conduta dos membros do clube. Em resposta às denúncias, o presidente do São Paulo, Júlio Casares, emitiu um comunicado oficial. Nele, Casares garantiu que a gestão agirá com o máximo rigor contra qualquer pessoa que for apontada com conduta inadequada, independentemente de laços de proximidade, amizade, parentesco, função ou alinhamento político. Essa declaração reflete a seriedade com que o clube pretende lidar com a situação, buscando proteger sua imagem e integridade.
O papel da Frente Democrática
A Frente Democrática em Defesa do São Paulo desempenhou um papel crucial ao levar as denúncias ao conhecimento do Ministério Público. Através da protocolização da “notícia-fato”, o grupo sinalizou irregularidades que, segundo suas apurações, envolviam não apenas a exploração ilegal de espaços do clube, mas também a obtenção de lucros indevidos por parte de indivíduos em posições de influência. A alegação de tentativas de coação no decorrer de um processo judicial evidencia uma preocupação adicional com a manipulação da justiça para encobrir as supostas atividades ilícitas. A atuação da Frente ressalta a importância da fiscalização por parte de grupos da sociedade civil e de torcedores organizados na defesa dos interesses e da imagem de instituições esportivas.
Detalhes do suposto esquema
O centro do suposto esquema de vendas irregulares está no Estádio do MorumBis, que possui diversos camarotes utilizados para jogos de futebol e grandes eventos, como shows. Um desses espaços é o camarote 3A, conhecido informalmente como “Sala Presidencial”. Este camarote, estrategicamente localizado em frente ao gabinete do presidente Júlio Casares, possui uma particularidade crucial: ele não é um espaço comercializado. Ou seja, por sua natureza e localização, ele não deveria ser objeto de transações de venda ou aluguel de ingressos.
No entanto, as investigações apontam que Mara Casares e Douglas Schwartzmann, que atuavam como diretores licenciados do São Paulo, estariam envolvidos na venda de ingressos referentes ao camarote 3A. Essa comercialização, segundo as acusações, era não autorizada e operava de forma “clandestina”. Áudios que vieram a público supostamente confirmam essa dinâmica, com os próprios diretores licenciados referindo-se à natureza não oficial das transações.
Nessas conversas gravadas, Mara Casares e Schwartzmann dialogam com Rita de Cássia Adriana Prado, conhecida como Adriana, representante da empresa The Guardians Entretenimento Ltda. Adriana é apontada como a intermediária no esquema, responsável pela venda e repasse das entradas do camarote 3A para terceiros interessados em acessar os eventos. A teia de envolvimento se estende ainda mais a partir de um processo judicial. Adriana, da The Guardians, abriu uma ação contra Carolina Lima Cassemiro, da Cassemiro Eventos Ltda, acusando-a de ter retido 60 ingressos que seriam comercializados para um show da cantora Shakira. O valor total desses ingressos girava em torno de R$ 132 mil, mas Adriana alega ter recebido apenas R$ 100 mil. Carolina, por sua vez, defende-se, afirmando ter pago o valor combinado e que está sendo vítima de calúnia, além de ter sofrido prejuízos próprios na transação.
A denúncia e a tentativa de coação
O processo movido por Adriana contra Carolina foi o catalisador que trouxe o suposto esquema à luz. Ao buscar judicialmente a cobrança por ingressos que, em si, eram gerados e comercializados de forma “clandestina”, Adriana inadvertidamente expôs a ilegalidade de toda a operação. A partir desse momento, o caso deixou de ser uma questão interna entre as partes e se tornou de conhecimento público, inclusive do São Paulo Futebol Clube.
Diante da repercussão e do risco de a ação ilícita se tornar amplamente conhecida, Mara Casares e Douglas Schwartzmann teriam, segundo as acusações, pressionado Adriana a retirar o processo. O objetivo seria evitar que os detalhes do esquema, que envolvia a venda não autorizada de ingressos do Camarote 3A, se espalhassem e causassem danos maiores à reputação do clube e dos envolvidos.
Em suas defesas, os diretores licenciados apresentaram suas versões dos fatos. Mara Casares alegou que os áudios que circularam estariam fora de contexto e que ela “não obteve ganho próprio de nenhuma natureza” com as transações. Douglas Schwartzmann, por sua vez, negou qualquer “participação em venda, negociação ou comercialização de camarotes ou ingressos de eventos”. Ele afirmou que agiu pontualmente e de forma isolada, motivado pela intenção de evitar que um problema particular de Adriana, que envolvia o camarote, pudesse afetar a imagem do São Paulo Futebol Clube. Outro nome que surgiu nos áudios vazados foi o do superintendente do clube, Marcio Carlomagno. No entanto, ele se defendeu, afirmando que seu nome foi usado indevidamente e que não teve envolvimento direto nos eventos.
Implicações e o futuro do caso
A solicitação de um inquérito policial pelo Ministério Público de São Paulo representa uma escalada significativa na investigação sobre o suposto esquema de venda irregular de ingressos no São Paulo Futebol Clube. O caso transcende agora as fronteiras de uma mera apuração interna e se insere no âmbito criminal, com as implicações legais potencialmente mais graves para os envolvidos. A investigação do MP-SP focará na corrupção privada no esporte e na coação no curso do processo judicial, podendo levar a acusações formais e processos criminais.
Para o São Paulo Futebol Clube, a situação é delicada. Embora a diretoria, na pessoa do presidente Júlio Casares, tenha se manifestado publicamente comprometida com a rigorosa apuração e punição de qualquer conduta inadequada, a continuidade da investigação e o envolvimento de diretores licenciados lançam uma sombra sobre a imagem da instituição. A transparência do processo e a eficácia das medidas adotadas serão cruciais para restaurar a confiança dos torcedores e da opinião pública. A reputação do clube, um dos maiores do Brasil, está em jogo, e a forma como a diretoria lidará com as descobertas da polícia será observada atentamente. O desdobramento do inquérito policial determinará o futuro dos indivíduos mencionados e poderá trazer à tona novas informações sobre as práticas que supostamente ocorreram no MorumBis.
Perguntas frequentes
1. Sobre o que é a investigação do MP-SP?
A investigação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) se refere a um suposto esquema de venda irregular de ingressos do camarote 3A, conhecido como “Sala Presidencial”, no Estádio do MorumBis. As acusações incluem exploração clandestina do espaço (corrupção privada no esporte) e tentativa de coação no curso de um processo judicial.
2. Quem são as principais figuras mencionadas no suposto esquema?
As principais figuras mencionadas são Mara Casares e Douglas Schwartzmann, ex-diretores licenciados do São Paulo FC, que supostamente estariam envolvidos nas vendas. Também são citadas Rita de Cássia Adriana Prado (Adriana, da The Guardians Entretenimento Ltda), como intermediária, e Carolina Lima Cassemiro (Cassemiro Eventos Ltda), alvo de um processo por Adriana.
3. Como o caso veio à tona publicamente?
O caso se tornou público após Rita de Cássia Adriana Prado (Adriana) mover um processo judicial contra Carolina Lima Cassemiro (Carolina) por uma disputa sobre 60 ingressos para um show. Ao processar alguém por ingressos gerados de forma “clandestina”, o esquema foi exposto e passou a ser de conhecimento geral, incluindo o do São Paulo Futebol Clube.
4. Quais são os próximos passos da investigação?
Com a solicitação do MP-SP, será aberto um inquérito policial, que conduzirá as investigações. A polícia coletará provas, ouvirá testemunhas e analisará os áudios e documentos relacionados. Os desdobramentos poderão resultar em indiciamentos e um possível processo criminal contra os envolvidos.
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Fonte: https://www.infomoney.com.br