O Congresso mexicano aprovou recentemente uma medida significativa que eleva as tarifas sobre mais de 1.400 produtos importados, afetando principalmente a China e nações que não possuem acordos de livre-comércio com o México. A decisão, que entrará em vigor a partir de janeiro, abrange uma vasta gama de mercadorias, incluindo têxteis, calçados, eletrodomésticos, veículos e autopeças. Embora a justificativa oficial do governo seja estimular a produção doméstica e proteger a indústria nacional, analistas do setor comercial apontam para uma motivação mais complexa, intrinsecamente ligada às tensas negociações e pressões provenientes dos Estados Unidos, o principal parceiro comercial do México.
Aprovação legislativa: o respaldo político e a busca por produção doméstica
Na última quarta-feira, o Congresso mexicano deu seu aval à elevação das tarifas, consolidando uma política que visa reformular a dinâmica das importações do país. A Câmara dos Deputados foi a primeira a aprovar a medida, seguida pelo Senado na mesma noite, demonstrando um alinhamento político considerável. O partido governista Morena, liderado pela presidente Claudia Sheinbaum, que assumirá o cargo, controla ambas as casas legislativas e tem defendido a iniciativa como essencial para o fortalecimento da economia interna.
Detalhes da votação e a influência do Morena
A aprovação no Senado reflete o controle do Morena sobre o legislativo, com um placar de 76 votos a favor, 5 contra e 35 abstenções. Essa maioria expressiva permite ao governo implementar medidas que, segundo seus defensores, são cruciais para a soberania econômica do México. A presidente eleita, Claudia Sheinbaum, tem reiterado a importância de incentivar a manufatura local e reduzir a dependência de produtos estrangeiros, especialmente em setores estratégicos. Essa abordagem faz parte de uma estratégia mais ampla para promover a reindustrialização do México e criar empregos dentro do país, diminuindo a vulnerabilidade a choques externos e flutuações do mercado global.
As tarifas, que podem chegar a até 50% em alguns casos, foram projetadas para tornar as importações menos competitivas em relação aos produtos fabricados no México, incentivando assim investimentos e expansão da capacidade produtiva nacional. Setores como o automotivo, têxtil e de eletrodomésticos, que enfrentam forte concorrência de mercados asiáticos, são vistos como beneficiários diretos dessa política, com a expectativa de que empresas domésticas possam ganhar maior fatia de mercado e expandir suas operações.
Relações comerciais e o cenário geopolítico
Apesar da justificativa oficial, muitos especialistas e analistas comerciais sugerem que a verdadeira impulsionadora dessa elevação de tarifas é a intrincada relação comercial entre o México e os Estados Unidos. O México tem sido pressionado a limitar o fluxo de produtos de países como a China que, segundo Washington, estariam usando o território mexicano como um “porta dos fundos” para o mercado americano, contornando as tarifas e regulamentações impostas diretamente aos produtos chineses.
A pressão dos EUA e a revisão do USMCA
A iniciativa mexicana ocorre em um momento estratégico, com a revisão do Acordo EUA-México-Canadá (USMCA) se aproximando. A presidente eleita Sheinbaum está em negociações para obter alívio das tarifas remanescentes impostas às exportações mexicanas pelo governo do ex-presidente Donald Trump. Os Estados Unidos ainda aplicam tarifas significativas em setores-chave como automotivo, aço e alumínio, o que tem gerado atrito e incerteza para os exportadores mexicanos.
Analistas como Oscar Ocampo, diretor do Instituto Mexicano para a Competitividade, destacam que a medida é um aceno à imprevisibilidade da política comercial americana e uma tentativa de fortalecer a posição do México nas futuras negociações. Ao alinhar-se com as preocupações dos EUA sobre a origem dos produtos importados, o México busca demonstrar compromisso com a integridade do USMCA e evitar sanções ou restrições ainda maiores às suas exportações para o norte. Essa manobra é vista como um esforço para salvaguardar o acesso preferencial do México ao vital mercado americano, que é o destino de grande parte de suas exportações. No entanto, essa estratégia carrega riscos, pois pode alienar outros parceiros comerciais e desestabilizar cadeias de suprimentos globais.
Impactos econômicos: cadeias de suprimentos e inflação
A China será o país mais afetado pelas novas tarifas, uma vez que o México importou cerca de US$ 130 bilhões em produtos chineses no último ano, um volume superado apenas pelas importações vindas dos EUA. Pequim já havia criticado os aumentos tarifários quando foram anunciados em setembro, indicando a tensão que a medida pode gerar nas relações bilaterais.
Para especialistas como Ocampo, a alteração da política comercial mexicana nessa direção pode ser um movimento “na direção errada”. Ele adverte que as novas tarifas podem criar rupturas significativas nas cadeias de suprimentos globais, essenciais para a manufatura mexicana. Isso, por sua vez, tem o potencial de pressionar a inflação em um momento de desaceleração econômica, impactando negativamente setores cruciais como autopeças, plásticos, químicos e têxteis. A dependência do México de insumos importados para sua própria produção industrial é alta, e a imposição de tarifas sobre esses componentes pode elevar os custos de produção, tornando os produtos mexicanos menos competitivos no mercado internacional e, consequentemente, afetando o consumidor final com preços mais altos. A complexidade de reconfigurar cadeias de suprimentos pode levar tempo e gerar ineficiências, atrasando a produção e a entrega de bens.
Perspectivas futuras e desafios econômicos
A decisão do Congresso mexicano de elevar as tarifas sobre produtos importados, particularmente da China e de países sem acordos de livre-comércio, representa um ponto de virada na política comercial do país. Embora oficialmente destinada a estimular a produção doméstica, a medida é largamente interpretada como uma resposta estratégica às pressões comerciais dos Estados Unidos e um esforço para fortalecer a posição do México nas negociações iminentes do USMCA. Os desafios incluem a necessidade de gerenciar as relações com a China, o impacto sobre os custos de produção e a inflação interna, e a complexidade de realinhar as cadeias de suprimentos globais. A eficácia dessa estratégia dependerá de sua capacidade de gerar crescimento econômico sustentável sem comprometer a competitividade internacional do México ou a estabilidade de seu mercado interno.
Perguntas frequentes sobre as novas tarifas
Por que o México aprovou essas novas tarifas?
O governo mexicano justifica a elevação das tarifas como uma forma de estimular a produção doméstica, proteger a indústria nacional e criar empregos. No entanto, analistas de comércio apontam que a medida também serve como uma estratégia de negociação com os Estados Unidos, visando obter alívio para tarifas americanas sobre exportações mexicanas e abordar as preocupações dos EUA sobre a China usar o México como rota de entrada para o mercado americano.
Quais produtos e países são os mais afetados por essas tarifas?
As novas tarifas, que podem chegar a 50%, afetam mais de 1.400 produtos, incluindo têxteis, calçados, eletrodomésticos, veículos e autopeças. A China é o país mais impactado devido ao grande volume de suas exportações para o México, seguida por outros países que não possuem acordos de livre-comércio com a nação mexicana.
Quais são os potenciais impactos econômicos para o México?
Especialistas alertam que as tarifas podem gerar rupturas nas cadeias de suprimentos, aumentar os custos de produção para as indústrias mexicanas que dependem de insumos importados e, consequentemente, pressionar a inflação. Setores como autopeças, plásticos, químicos e têxteis podem ser particularmente afetados, resultando em preços mais altos para os consumidores e desafios para a competitividade internacional do México em um cenário de desaceleração econômica.
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Fonte: https://www.infomoney.com.br