O desenvolvimento infantil é marcado por momentos significativos, como a retirada das fraldas e o início da vida escolar. Contudo, esses marcos podem estar associados a um problema comum que gera preocupação nas famílias: a constipação intestinal.
A constipação na infância, na maioria das vezes, é classificada como “funcional”, ou seja, não é causada por uma doença, mas por comportamentos que comprometem o funcionamento adequado do intestino. Os fatores que desencadeiam essa condição são, frequentemente, de natureza emocional e social.
O Ciclo do Medo e a Dor
Diferentemente dos adultos, que buscam soluções para o desconforto intestinal, as crianças tendem a evitar a dor. O problema geralmente começa de maneira simples: uma ingestão inadequada de água ou um consumo excessivo de alimentos ultraprocessados pode resultar em fezes endurecidas, causando dor ao evacuar. Essa experiência leva a uma associação imediata: fazer cocô dói. Para evitar essa dor, a criança começa a segurar as fezes.
O intestino grosso, por sua vez, continua a absorver água das fezes retidas, tornando-as ainda mais secas e volumosas. Quando a criança finalmente consegue evacuar, a dor é ainda mais intensa, criando um “ciclo do medo” que é difícil de romper sem paciência e estratégias adequadas.
Desfralde Precoce e Banheiro da Escola: Os Principais Vilões
- Desfralde Forçado: A pressão para que a criança abandone as fraldas antes de estar pronta, tanto do ponto de vista físico quanto psicológico, pode gerar ansiedade. Sentar-se em um vaso sanitário grande, com os pés suspensos, provoca insegurança, levando a criança a evitar a evacuação.
- Rotina Escolar: O ambiente escolar é repleto de estímulos que podem desviar a atenção da criança. Além disso, o medo de usar um banheiro diferente do de casa, a falta de privacidade e a dificuldade em pedir ajuda ao professor podem intensificar essa situação.
Como Ajudar as Crianças em Casa?
A Regra do Banquinho: É essencial que a criança não evacue com os pés suspensos. O uso de um banquinho ou adaptador para os pés pode ajudar a manter os joelhos levemente acima da linha do quadril, o que facilita a evacuação.
Rotina do Troninho: Aproveite o reflexo gastrocólico, que estimula a evacuação após as refeições. Leve a criança ao banheiro de 15 a 20 minutos após o almoço ou jantar, sem pressa e sem distrações como celulares ou tablets.
Água e Brincadeira: A hidratação é crucial, especialmente em dias quentes. Mantenha garrafinhas de água visíveis e acessíveis para lembrar a criança de se hidratar enquanto brinca.
Sinais de Alerta para os Pais
O uso indiscriminado de laxantes ou supositórios pode causar danos à região anal e viciar o intestino. Fique atento a sinais como: se a criança passar mais de três ou quatro dias sem evacuar, chorar de dor, apresentar sangramentos nas fezes ou ter escapes fecais involuntários, é fundamental buscar ajuda médica com um pediatra.
Tratar a constipação na infância exige acolhimento, compreensão e tempo, reconhecendo que o bloqueio muitas vezes se inicia na mente da criança, e não apenas no seu corpo.
Camila Maria Silva Leite.
Nutricionista Pediátrica e Terapeuta Alimentar.
CRN-11/15471