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Consignado CLT quase triplica em 7 meses, e juro médio chega perto de 60% ao ano

O programa Crédito ao Trabalhador, lançado em março deste ano, chegou em setembro a 6.399 concessões de empréstimos consignados, que tem desconto cobrado diretamente na folha de pagamento. No mesmo período, a taxa média de juros também subiu. O percentual, que era de 44% em março, foi a 58,4% em setembro – e há bancos […]


O programa Crédito ao Trabalhador, lançado em março deste ano, chegou em setembro a 6.399 concessões de empréstimos consignados, que tem desconto cobrado diretamente na folha de pagamento. No mesmo período, a taxa média de juros também subiu. O percentual, que era de 44% em março, foi a 58,4% em setembro – e há bancos que cobram até 185% de juros anuais.

Especialistas ouvidos pelo InfoMoney afirmam que a oferta de crédito se dá, muitas vezes, sem a informação necessária sobre o risco de comprometimento de renda, já que muitas pessoas tomam o crédito sem se dar conta do peso do pagamento na renda mensal.

Antes do programa, a contratação desse tipo de crédito já estava disponível no mercado, mas era mais burocrática. As empresas precisavam ter um convênio com alguma instituição financeira para que o empregado tivesse acesso ao empréstimo com desconto em folha. 

Agora, as instituições financeiras aderem ao programa e, por meio do aplicativo Carteira de Trabalho Digital, o trabalhador pode solicitar uma proposta de crédito e escolher com quem irá contrair o empréstimo. A empresa só fica sabendo que o empréstimo foi feito quando chega a notificação para fazer o desconto em folha – que não pode ultrapassar 35% do salário. A modalidade está disponível para quem é CLT, e também para trabalhador doméstico, rural, Microempreendedores Individuais (MEI) e trabalhadores de aplicativo.

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Concessões disparam

Essa simplificação na contratação fez com que os empréstimos consignados do setor privado passassem de uma média de 1.500 contratações ao mês em 2023, 2024 e início de 2025 para mais de 6,3 mil em setembro.

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Empréstimos consignados | setor privado
Mês \ Ano 2023 2024 2025
jan 1.614 1.565 1.698
fev 1.377 1.478 1.567
mar 1.554 1.426 2.250
abr 1.387 1.714 5.596
mai 1.704 1.725 3.086
jun 1.582 1.556 2.589
jul 1.538 1.666 5.112
ago 1.648 1.788 6.066
set 1.505 1.744 6.399
Fonte: BC

A economista Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV Ibre e analista da BRCG Consultoria, avalia que o aumento da concessão indica que o governo “abriu” uma via que estava obstruída, e que agora busca sua estabilidade no mercado.

Essa entrada de mais tomadores de crédito derruba a taxa de inadimplência, porque tem mais pessoas entrando na base, em comparação a quem está atrasando os pagamentos.

Variação da concessão, juros e inadimplência do Crédito do Trabalhador
Período Concessão (%) Juros (%) Inadimplência (%)
De agosto para setembro 5,5 2,1 -0,2
De julho a setembro 55,9 2,1 -1,4
De janeiro a setembro 134,4 17,6 -2,2
De setembro de 2024 a setembro de 2025 104,3 20,0 -2,6
Fonte: BC
Fonte: BC

Juros sobem

Desde que o programa foi lançado, a taxa média de juros subiu de 44% para 58,4% – aumento de 14,4 pontos percentuais. 

Empréstimos consignados no setor privado: Taxa média de juros (%) ao ano
Mês \ Ano 2023 2024 2025
jan 39,3 38,5 41,1
fev 39,7 38,7 40,9
mar 39,3 38,1 44,0
abr 39,2 38,5 59,1
mai 39 38,8 55,6
jun 38,9 38,7 56,3
jul 38,5 38,6 55,5
ago 38,3 38,1 56,3
set 38,1 38,4 58,4
Fonte: BC

Os juros são menores do que outros tipos de crédito disponíveis no mercado, mas são o dobro do que é concedido para os servidores públicos e beneficiários do INSS.

Enquanto o crédito não consignado, que são empréstimos gerais sem desconto em folha, o juro estava em 101,2% ao mês para contratações feitas em setembro, na categoria consignado CLT, o juro era de 58,4%, bem acima do consignado para servidor público (24,4%) e beneficiários do INSS (24%).

Taxa média de juros
Crédito para pessoa física Juros (%) ao ano
Cheque especial 141,0
Crédito não consignado 101,2
Crédito consignado CLT 58,4
Crédito consignado servidores públicos 24,4
Crédito consignado beneficiários do INSS 24,0
*Juro médio anual para empréstimos concedidos em setembro

Hennings afirma que a taxa de juros para o consignado do setor privado é menor do que os empréstimos em geral porque o desconto em folha dá à instituição financeira uma garantia maior de pagamento. Além disso, o valor acumulado no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) serve como “caução” para que o empréstimo seja quitado em caso de demissão. 

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Se o recurso não for suficiente – ou seja, se o valor do FGTS for menor do que o empréstimo –, o desconto em folha vai prosseguir na próxima contratação CLT – com juros e correção monetária referente ao período de “desemprego”. 

Esta garantia deveria dar ao sistema de crédito a possibilidade de conceder juros menores, relativos aos beneficiários do INSS e aos servidores públicos, avalia Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira (Abefin).

Além disso, o uso do FGTS como garantia deixa o trabalhador em uma situação delicada. O fundo, que deveria assegurar a estabilidade financeira do trabalhador durante o período entre empregos, ficará comprometido com o pagamento da dívida, tirando a renda que estaria disponível em um momento de fragilidade.

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Risco do crédito fácil

Para Domingos, o Crédito do Trabalhador é “uma dádiva e um problema”, porque pode ajudar o trabalhador com empréstimo a juros menores que demais modalidades do mercado, mas precisa de orientação sobre o custo desse dinheiro. 

“Estamos quase em um colapso da situação financeira do brasileiro”, avalia. “São quase 80 milhões de endividados e a facilidade de acesso ao crédito não vem acompanhada de educação financeira”, diz.

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Uma pesquisa feita pela Abefin analisou um universo de 22 mil contratos efetivados e entrevistou 400 pessoas que contrataram o consignado CLT e 400 pessoas que não contrataram. 

Os dados apontam que 69% não calculou o impacto mensal no orçamento e 83% não sabia quanto pagava de juro. Eles também disseram que não sabiam que o FGTS seria usado como garantia direta (47%). 

Outro ponto a se considerar é a variedade de juro praticado dentro do sistema bancário. Dados do BC, coletados no fim de outubro, apontam que os juros do consignado ao trabalahdor do setor privado vão de 19,10% ao ano no Banco Arbi a até 185,19% no Banco Ribeirão Preto. 

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Entre os maiores bancos, as taxas anuais estavam até o fim de outubro em 36,6% no Bradesco, 40,84% na Caixa, 41,28% no Itaú, 45,74% no Banco do Brasil e 48% no Santander.

Impacto na renda

Hennings alerta sobre o risco de trabalhadores contraírem dívidas sem dimensionar o impacto que isso terá na renda, já que, com o desconto em folha, o salário líquido disponível para as demais despesas ficará comprometido.

“As pessoas precisam saber que crédito não é renda. É uma antecipação da renda futura e, neste caso, é a antecipação do salário. Isso precisa ficar muito claro para a pessoa entender que ela vai receber menos ao fim do mês, porque o desconto já vem em folha”, alerta. 

Ela explica que, se o tomador de crédito usar o limite máximo de 35%, isso pode representar uma redução significativa da renda disponível no mês seguinte. 

Se este trabalhador for alguém com um nível de renda em que desconte 27% do Imposto de Renda, ao somar mais 35% do consignado, vai sobrar 38% do salário – sem considerar os outros descontos, como Previdência, plano de saúde, entre outros.

Outro risco, alerta Domingos, é a extensão da modalidade para trabalhadores de aplicativo. “O sujeito, muitas vezes, já está batalhando para complementar o salário e ainda vai comprometer os rendimentos daquela segunda fonte de renda para pagar o empréstimo”, alerta.

Como avaliar o uso do crédito consignado CLT

O trabalhador que queira usar o crédito consignado com desconto em folha deve ficar atento à sua contabilidade pessoal, levantando custos recorrentes e esporádicos para checar se a parcela do empréstimo não vai comprometer o pagamento das despesas.

Outro ponto a se considerar é o prazo de pagamento desta dívida. Ao dividir um empréstimo em 60 parcelas, é preciso ficar claro que o salário ficará reduzido ao longo de cinco anos. Dados do BC apontam que o prazo médio das operações de consignado do setor privado está em 34,4 meses – o que soma quase 3 anos.

De acordo com a pesquisa da Abefin, os empréstimos desta modalidade foram feitos para:

  • 36% para pagar dívidas caras, como o rotativo do cartão de crédito ou o cheque especial
  • 29% para pagar gastos com saúde
  • 26% para reformar a casa
  • 19% para pagar eletrodomésticos ou veículos

Trocar uma dívida de rotativo de cartão de crédito – que tem juro de 43,39% a até 1.321,5% ao ano, com média de 508,5% (dados de outubro do BC) – pode parecer um bom negócio à primeira vista. Mas Domingos sugere outra estratégia. “Cartão de crédito, cheque especial, e empréstimos são contas que estão sob a vigência da Lei do Superendividamento – e o consignado não está. Ou seja, não dá para renegociar esta dívida”, alerta.

“O consignado é uma modalidade de crédito em que o tomador não consegue fugir do pagamento futuro. Se a pessoa tiver dificuldade de renda, ela não vai poder parcelar ou renegociar este empréstimo”, reforça Hennings.

Domingos afirma que, nestes casos, é mais vantajoso negociar a dívida dessas contas e parcelar do que trocar uma dívida pela outra. Ele sugere que o endividado procure uma empresa que ajude na recuperação de crédito, que pode oferecer descontos de 50% a 90%.



Fonte: Infomoney.com

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