A prolongada instabilidade no Oriente Médio intensifica temores de um impacto direto na mesa dos consumidores em todo o mundo. Especialistas alertam que, quanto mais o conflito persistir, maior a probabilidade de aumento nos preços dos alimentos e, em cenários críticos, a disseminação da fome em nações vulneráveis. O foco recai sobre o papel crucial do Golfo Pérsico na produção e exportação de fertilizantes, essenciais para a agricultura global.
Estreito de Ormuz: O gargalo da produção global
A região do Golfo Pérsico, vital para petróleo e gás, é igualmente crucial como fonte de fertilizantes nitrogenados. Sua energia impulsiona fábricas que transformam gás natural em nutrientes para plantas, base de metade do suprimento mundial de alimentos. Embora a produção siga, a entrega foi severamente comprometida pelo fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, canal que conecta o Golfo ao Oceano Índico. Essa interrupção eleva não só os preços do petróleo, mas ameaça diretamente o custo dos fertilizantes. ‘É ruim — não há outra maneira de dizer’, afirmou Chris Lawson, vice-presidente do CRU Group. ‘O mundo depende muito de fertilizantes e matérias-primas associadas fornecidas por essa região.’
Lições do passado e o risco atual
A interconexão global já demonstrou suas fragilidades há quatro anos, quando a invasão russa à Ucrânia gerou uma crise alimentar, com escassez de grãos e elevação de preços. Naquela ocasião, Rússia e Ucrânia eram importantes fornecedores de trigo e fertilizantes, resultando em colheitas menores. Embora a crise no Oriente Médio não afete diretamente a colheita de grãos, seu impacto nos fertilizantes pode ser ainda mais severo. ‘Os volumes são potencialmente maiores desta vez do que no conflito entre Rússia e Ucrânia’, observou Sarah Marlow, da Argus Media. ‘Há vários países produtores envolvidos.’
Cinco grandes exportadores de fertilizantes — Irã, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein — dependem criticamente do Estreito de Ormuz. Juntos, respondem por mais de um terço do comércio global de ureia e quase um quarto da amônia, além de um quinto dos fosfatados. A QatarEnergy, importante fornecedora de ureia, paralisou a produção na semana passada após perder acesso ao gás natural devido a ataques. Outras fábricas seguem produzindo, mas enfrentam limites de armazenamento com os embarques suspensos. ‘Ninguém sabe por quanto tempo isso pode continuar e ainda haver espaço suficiente para armazenamento’, disse Laura Cross, da Associação Internacional de Fertilizantes.
A escalada da crise agrícola serve como alerta sobre a perigosa dependência global de poucos produtores para recursos essenciais. Assim como a pandemia expôs a dependência da China para ingredientes farmacêuticos e a instabilidade no Oriente Médio ressalta a vulnerabilidade energética, a atual crise dos fertilizantes reforça que essa mesma região instável é um pilar vital para o sustento alimentar do mundo.
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Fonte: https://www.infomoney.com.br