A ansiedade é uma condição que afeta não apenas a mente, mas também o coração. “Sinto meu coração disparar, falta de ar e uma sensação de que algo muito ruim vai acontecer”. Esse relato é comum em consultórios de cardiologia, onde muitas vezes, após exames, o diagnóstico revela que o problema não está no coração, mas sim na ansiedade.
Historicamente, a ansiedade foi vista como um problema mental, separado do corpo. No entanto, a medicina moderna demonstra que a ansiedade e as doenças cardiovasculares estão interligadas, criando um ciclo vicioso onde uma condição pode agravar a outra.
O impacto da ansiedade no corpo
Quando a ansiedade se instala, o corpo entra em um estado constante de alerta. O sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de “lutar ou fugir”, permanece ativado, resultando em:
- Aumento da frequência cardíaca
- Elevação da pressão arterial
- Liberação excessiva de cortisol e adrenalina
- Inflamação de baixo grau
- Disfunção do endotélio, que reveste os vasos sanguíneos
Esse estado de alerta contínuo faz com que o coração e as artérias operem em sua capacidade máxima, o que pode levar a sérios problemas de saúde.
Riscos associados à ansiedade não tratada
Pesquisas publicadas em revistas médicas, como o Jornal do Colégio Americano de Cardiologia, indicam que indivíduos com transtornos de ansiedade não tratados enfrentam riscos elevados de hipertensão, arritmias, infarto e até morte súbita. A ansiedade crônica, que se torna parte do cotidiano, é a principal preocupação.
Além disso, os sintomas de ansiedade, como palpitações e dor no peito, muitas vezes se confundem com problemas cardíacos, levando os pacientes a buscar atendimento médico, apenas para receber o diagnóstico de ansiedade. Essa confusão pode fazer com que a condição seja subestimada.
A relação inversa: coração e saúde mental
Pacientes que sofreram infartos ou realizaram cirurgias cardíacas frequentemente desenvolvem ansiedade e depressão. Ignorar esse aspecto emocional pode resultar em recuperações mais lentas e maior taxa de reinternações. Portanto, tratar a saúde mental é essencial para uma recuperação completa.
Estilo de vida e saúde cardiovascular
Pessoas ansiosas tendem a adotar hábitos prejudiciais, como dormir mal, comer de forma inadequada, fumar e consumir álcool em excesso. Esses fatores, isoladamente, já são riscos para a saúde cardiovascular, e juntos formam uma verdadeira bomba-relógio.
Tratamento e prevenção
A boa notícia é que a ansiedade é tratável. A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, é eficaz, assim como a prática regular de atividades físicas, que beneficia tanto o coração quanto a saúde mental. Outras práticas, como meditação, ioga e sono de qualidade, também são recomendadas. Em alguns casos, a medicação pode ser necessária, e isso deve ser visto como um cuidado, não como uma fraqueza.
Em um mundo repleto de estresse e pressões constantes, cuidar da saúde mental não é um luxo, mas uma necessidade. A prevenção cardiovascular começa com o cuidado integral do ser humano.
Por isso, a pergunta que devemos nos fazer é: “Como estou eu, por inteiro?” A ansiedade, quando ignorada, não afeta apenas a mente, mas também se reflete em questões cardíacas. Ouvir a si mesmo pode ser a chave para salvar vidas.
Marcelo Luiz Martins
Médico Cardiologista e Intensivista
CRMPI – 2774
Fonte: portalclubenews.com