O Brasil se destaca por ter um dos maiores índices de cesarianas do mundo, com 55% dos nascimentos realizados por esse método, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2021. Apesar dos esforços para reduzir intervenções consideradas desnecessárias, a preferência pela cesárea continua a crescer no país.
Entre 2009 e 2023, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou uma queda de 39% nos partos vaginais, enquanto a taxa de cesáreas aumentou em 38%. Essa análise foi realizada por pesquisadores do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS) do Hospital Israelita Albert Einstein, utilizando dados de partos no SUS.
Alterações regionais e aumento das cesáreas
O estudo, publicado em março na revista científica Einstein, revelou mudanças significativas nas taxas de cesárea em diferentes regiões do Brasil. O Nordeste, que historicamente apresentava os menores índices, viu um aumento expressivo nos partos cirúrgicos. Em contrapartida, Roraima foi a única região onde os índices caíram, de 19,4% para 6,8% em 14 anos.
Os autores do estudo, como o ginecologista e obstetra Eduardo Felix Santana, alertam que o aumento das cesáreas implica em maior tempo de internação e custos elevados para o sistema de saúde. “Esse crescimento representa uma carga financeira e estrutural significativa”, afirma.
Cultura da cesárea e suas implicações
A ideia de que a cesárea é um procedimento mais moderno e seguro se consolidou no Brasil desde a década de 1970. A médica Eliana Amaral, da Unicamp, destaca que essa cultura valoriza a cesárea como um símbolo de melhor cuidado à saúde da mulher. O medo da dor durante o parto também leva muitas mulheres a optarem pela cesárea, mesmo com a analgesia garantida por lei, que nem sempre é respeitada.
Eduardo Zlotnik, ginecologista do Einstein, observa que a formação médica atual contribui para essa realidade. Novas gerações de obstetras muitas vezes não têm o preparo adequado para realizar partos vaginais, o que aumenta a preferência pela cesárea. Além disso, a falta de infraestrutura e equipes treinadas para o parto normal dificulta ainda mais essa opção.
Desafios e riscos associados à cesárea
Embora a cesárea seja essencial em casos clínicos, sua realização sem necessidade acarreta riscos significativos. As mulheres podem enfrentar complicações como hemorragias, infecções e recuperação mais lenta. Para os recém-nascidos, a cesárea eletiva pode resultar em desconforto respiratório e necessidade de internação em UTI neonatal.
O estudo também aponta que mulheres com 40 anos ou mais apresentam piores indicadores hospitalares, frequentemente necessitando de intervenções obstétricas mais intensas. No entanto, com um pré-natal adequado, é possível realizar partos vaginais seguros mesmo em gestações de maior risco.
Propostas para redução das cesáreas desnecessárias
Os especialistas sugerem que, para diminuir o número de cesáreas desnecessárias, é fundamental investir em campanhas de conscientização para pacientes e profissionais de saúde, além de melhorar a formação médica e a infraestrutura hospitalar. “Garantir um parto respeitoso e seguro é respeitar os direitos reprodutivos das mulheres”, conclui Eliana Amaral.