Mesmo com indicadores como emprego e renda em alta, o bolso do brasileiro continua apertado, com o endividamento e os atrasos nos pagamentos persistindo. A previsão para 2026 não é animadora, indicando que a recuperação financeira ainda será lenta. Apesar de uma projeção de queda da Selic a partir de março, especialistas preveem juros acima de 12% ao fim do ano. Isso mantém o juro real elevado, o que deve continuar a frear a atividade econômica, impactando a geração de empregos e as possibilidades de aumento de renda para as famílias.
Segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), o endividamento alcançou um patamar histórico. Para ela, o crédito geral não deve crescer de forma significativa, desacelerando o desenvolvimento econômico. “Mesmo com a queda de juros no curto prazo, o cenário de crédito não deve mudar significativamente, pois o custo do crédito depende não apenas da Selic, mas também das perspectivas econômicas”, explica.
Dívidas e Inadimplência: números preocupantes
Os dados mais recentes do Banco Central, divulgados nesta quinta-feira (29), revelam um cenário desafiador. Ao fim de 2025, o endividamento das pessoas físicas atingiu 49,77%, aumentando 1,14 p.p. em relação a janeiro (48,63%). A inadimplência também cresceu significativamente, passando de 3,78% no início do ano para 5,05% em dezembro, um avanço de 1,27 p.p. O comprometimento da renda familiar com dívidas chegou a 29,28%, contra 27,57% no início do ano passado. Sem considerar créditos habitacionais, 27% da renda dos brasileiros é usada para quitar boletos, contra 25% em janeiro.
Por que as famílias não conseguem sair das dívidas?
Apesar da melhora em alguns indicadores, a dificuldade em reduzir o endividamento e a inadimplência reside em fatores como o rolamento da dívida e o impacto dos juros compostos. O pesquisador Flávio Ataliba, do FGV Ibre, lembra que, três anos após o fim da pandemia de Covid-19, muitos brasileiros ainda lidam com dívidas contraídas naquela época. A atuação de fintechs, que flexibilizaram o crédito para a população desbancarizada, muitas vezes sem educação financeira, também é um fator. “O aumento do endividamento vem para sustentar um consumo que é crescente pela facilidade de liquidez, mas também para pagar dívidas do passado”, explica Ataliba.
A falta de reservas de emergência torna as famílias mais vulneráveis a imprevistos, como reparos ou problemas de saúde. Muitos recorrem ao crédito rotativo do cartão, pagando o mínimo sem compreender os juros compostos.
Linhas de crédito que mais crescem
Ao longo de 2025, algumas modalidades de crédito apresentaram expansão notável. O crédito rotativo do cartão de crédito cresceu 8,6%, enquanto o empréstimo pessoal avançou 14,7% e o cheque especial, 10,9%. Destaque para o crédito consignado privado, com 183,6% de aumento, modalidade com desconto direto na folha de pagamento.
Com este cenário de juros altos e um patamar histórico de endividamento, a projeção é que a pressão sobre o orçamento familiar continue significativa em 2026. A recuperação do poder de compra e a diminuição da inadimplência dependerão de uma melhora mais robusta na economia e de políticas que incentivem a educação financeira e o crédito consciente, para que o brasileiro possa, enfim, respirar com mais tranquilidade.
Fique atento às notícias do Altos News para acompanhar o impacto dessas tendências em nossa região.
Fonte: https://www.infomoney.com.br