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Juro neutro do Brasil: deveria ser 8% e não 5%, avalia Kanczuk

A discussão sobre a taxa de juro neutra no Brasil ganhou um novo e relevante capítulo com a análise de Fábio Kanczuk, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda e renomado especialista em macroeconomia. Contradizendo a estimativa do Banco Central, que a situa em 5%, Kanczuk argumenta que o patamar correto para o juro […]

Fabio Kanczuk, diretor de macroeconomia do ASA e ex-secretário de Política Econômica (Foto: Di...

A discussão sobre a taxa de juro neutra no Brasil ganhou um novo e relevante capítulo com a análise de Fábio Kanczuk, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda e renomado especialista em macroeconomia. Contradizendo a estimativa do Banco Central, que a situa em 5%, Kanczuk argumenta que o patamar correto para o juro neutro brasileiro seria de 8%. Essa divergência substancial não é meramente um detalhe técnico, mas sim um reflexo das complexas dinâmicas fiscais e monetárias do país. A taxa de juro neutra representa o nível de juros reais que não acelera nem desacelera a inflação, permitindo que a economia opere em seu potencial pleno sem pressões. A visão de Kanczuk sugere que o atual impulso fiscal demanda uma taxa real significativamente mais alta para que a economia atinja esse equilíbrio, um ponto crucial para a formulação da política monetária e para as expectativas de mercado.

A recalibração do juro neutro no Brasil

Impulso fiscal e o equilíbrio econômico

A tese central que sustenta a avaliação de Kanczuk é a de que o vigoroso impulso fiscal atualmente em curso no Brasil eleva a taxa de juro neutra. Em termos mais claros, para que a economia brasileira encontre um ponto de equilíbrio — onde não haja aceleração inflacionária indesejada nem uma desaceleração abrupta do crescimento — seria necessário um nível de juro real consideravelmente superior ao que se tem como consenso. Essa condição é vital para a estabilidade macroeconômica, pois um juro neutro subestimado pode levar a políticas monetárias excessivamente frouxas, com potenciais consequências inflacionárias, ou a um ciclo de aperto que não produz os efeitos desejados devido a uma base de partida inadequada.

Kanczuk aponta que a política monetária só se tornou efetivamente contracionista no Brasil em março, quando o juro real atingiu 8%. Segundo sua análise, o fato de a economia nacional não ter desacelerado drasticamente nos últimos três anos, mesmo diante de taxas de juros nominais elevadas, corrobora a ideia de que o juro neutro está, de fato, em um patamar mais alto. Essa resiliência da atividade econômica em face de juros aparentemente restritivos pode ser interpretada como um sinal de que o ponto de equilíbrio do sistema é mais elevado do que o Banco Central e parte do mercado imaginam.

A deterioração fiscal emerge como o principal catalisador para essa elevação do juro neutro. Jeferson Bittencourt, economista especializado em questões fiscais, descreve um cenário de “deterioração da institucionalidade fiscal” no país. Ele argumenta que, embora o governo se comprometa formalmente com o cumprimento das metas fiscais, isso tem ocorrido à custa da qualidade do ajuste. Bittencourt destaca que há uma prática de “tirar despesas do limite” — como as exclusões recentes de gastos com estatais e certas despesas do cálculo da meta de resultado primário — o que permite sustentar um déficit nominal elevado enquanto, formalmente, o arcabouço fiscal é respeitado. Essa manobra gera desconfiança no mercado e, consequentemente, pressiona a curva de juros para cima, refletindo o custo de financiamento de um Estado percebido como menos disciplinado.

Flexibilização da política monetária e projeções futuras

As “amarras” retiradas pelo Banco Central e o cenário de cortes

Apesar do desafiador cenário fiscal, analistas de mercado preveem o início do ciclo de cortes na taxa Selic já no começo de 2026. Fábio Kanczuk observa que o Banco Central, em seus comunicados mais recentes, removeu o que ele chama de “todas as amarras” que poderiam impedir uma flexibilização da política monetária. Essas “amarras” eram elementos específicos da linguagem e das projeções do BC que sinalizavam um compromisso com a manutenção de juros altos por um período prolongado.

Uma das principais mudanças foi a substituição da expressão que justificava o juro alto por um período “bastante prolongado” pela frase “em curso”, referindo-se a um período que já passou, e não a um compromisso futuro. Outro ponto crucial foi a sinalização de maior flexibilidade na convergência da inflação para a meta de 3%, indicando que projeções ligeiramente acima desse patamar poderiam ser consideradas aceitáveis. Essa mudança de postura é interpretada como uma abertura para que o BC tenha maior liberdade de atuação.

De acordo com a análise de Kanczuk, “o Banco Central tirou todas as amarras, tanto do texto quanto das projeções. Ele está livre para cortar juros. Agora, quando ele vai cortar, vai depender de como vão estar os dados”. Essa declaração sugere que, embora o caminho esteja desimpedido, a decisão efetiva de corte estará intrinsecamente ligada à evolução dos indicadores econômicos, como inflação, atividade e expectativas.

As projeções de especialistas indicam um corte inicial de 0,25 ponto percentual na Selic em janeiro de 2026, com uma aceleração para 0,50 ponto percentual em março. A estimativa é que a taxa Selic encerre o ano de 2026 em 11,50%. Este cenário base é visualizado como mais “calmo”, com o dólar abaixo de R$ 5,40 e o Banco Central implementando os cortes gradualmente.

Riscos eleitorais e pressões inflacionárias

Apesar do otimismo em relação aos cortes iniciais, um ponto de atenção significativo recai sobre a segunda metade de 2026. Este período, que antecede as eleições presidenciais, pode apresentar um cenário complexo. Com a inflação operando próxima a 4% e os cortes de juros em andamento, o Brasil pode chegar ao pleito eleitoral com uma política econômica de caráter estimulativo.

Kanczuk alerta para a assimetria dos riscos inflacionários. Segundo ele, há uma probabilidade consideravelmente maior de a inflação surpreender para cima, superando 4,5%, do que de cair para baixo de 1,5%. Esses percentuais representam as bandas de tolerância da meta de inflação. Essa assimetria sugere que, em um ambiente de política monetária mais flexível e com pressões fiscais latentes, o risco de desancoragem das expectativas inflacionárias é elevado.

A análise aponta que, mesmo com a Selic em patamares relativamente altos — projetada em 13,5% na metade de 2026 —, o juro real, quando se consideram os juros futuros e a inflação esperada, já estaria próximo de 8%. Esse nível de juro real, para Kanczuk, indica uma política monetária que se torna estimulativa em um momento crucial, próximo às eleições, o que pode exacerbar os riscos inflacionários e gerar instabilidade.

Perspectivas para a estabilidade econômica brasileira

A análise do cenário econômico brasileiro revela uma complexa interação entre política fiscal e monetária, com o patamar do juro neutro no centro do debate. A visão de que a taxa deveria ser de 8% e não de 5%, impulsionada principalmente pela deterioração fiscal, sublinha a necessidade urgente de reformas estruturais e de um compromisso fiscal crível e transparente. A capacidade do Banco Central de navegar por esse ambiente, flexibilizando a política monetária sem perder o controle sobre a inflação, dependerá diretamente da evolução dos indicadores econômicos e da percepção do mercado sobre a sustentabilidade das contas públicas. A remoção das “amarras” de comunicação abre espaço para cortes da Selic, mas os riscos inflacionários e o contexto eleitoral de 2026 demandam cautela e monitoramento constante. O equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços continua sendo o grande desafio para os formuladores de política econômica no Brasil.

Perguntas frequentes sobre a taxa de juro neutra e a Selic

1. O que é a taxa de juro neutra e por que ela é importante?
A taxa de juro neutra é o nível de juros reais que permite que a economia cresça em seu potencial, sem gerar pressões inflacionárias ou deflacionárias. É um conceito fundamental para a política monetária, pois serve como um balizador para o Banco Central determinar se a Selic está estimulando ou contraindo a economia. Se a Selic real estiver acima do juro neutro, a política monetária é contracionista; se estiver abaixo, é expansionista.

2. Qual a principal razão para a revisão da taxa de juro neutra no Brasil, segundo especialistas?
Segundo especialistas como Fábio Kanczuk, a principal razão para a revisão da taxa de juro neutra para um patamar mais elevado (8% em vez de 5%) é o atual impulso e a deterioração fiscal. Uma política fiscal expansionista e pouco transparente aumenta a incerteza e a percepção de risco, exigindo um juro real mais alto para atrair investimentos e conter a inflação, mesmo com a economia em equilíbrio.

3. Quando o Banco Central pode começar a cortar a Selic, de acordo com as projeções?
Projeções de mercado indicam que o Banco Central poderá iniciar o ciclo de cortes na taxa Selic já no começo de 2026, com um corte inicial de 0,25 ponto percentual em janeiro, seguido por 0,50 ponto percentual em março. Essa flexibilização seria possível devido à remoção de “amarras” nos comunicados do BC, que sinalizam maior liberdade para ajustar a política monetária conforme os dados econômicos.

Para aprofundar seu entendimento sobre as dinâmicas econômicas e seus impactos, explore nossas análises e mantenha-se informado.

Fonte: https://www.infomoney.com.br

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