O diretor do Federal Reserve (Fed), Stephen Miran, em um discurso contundente proferido em um evento sobre perspectivas de inflação na Universidade de Columbia, no dia 15, defendeu que a manutenção de uma política monetária “desnecessariamente restritiva” por parte do banco central norte-americano inevitavelmente levará a uma significativa perda de empregos na economia dos Estados Unidos. Miran, uma voz notavelmente divergente dentro do comitê de política monetária do Fed, argumenta que os indicadores de preços já demonstram uma estabilidade considerável, justificando, assim, uma postura mais flexível. Sua posição destaca um debate crucial dentro da instituição sobre o timing e a magnitude da flexibilização monetária, com implicações profundas para a estabilidade do mercado de trabalho e o crescimento econômico. Este alerta ressoa em um momento em que o país busca equilibrar a luta contra a inflação com a preservação do emprego pleno, levantando questões sobre a adequação da atual abordagem do Fed.
O alerta de Stephen Miran sobre a política monetária
Stephen Miran, um dos diretores mais expressivos do Federal Reserve, não poupou críticas à atual orientação da política monetária, classificando-a como excessivamente rígida e prenunciando consequências negativas para o mercado de trabalho. Sua principal preocupação reside no risco de que a persistência de taxas de juros elevadas e outras medidas restritivas, que foram implementadas para combater um surto inflacionário pós-pandemia, agora estejam descompassadas com a realidade econômica. Para Miran, que defendeu abertamente uma redução de 50 pontos-base na reunião de dezembro do Fed, as evidências apontam para uma estabilização dos preços. Embora reconheça que as famílias americanas ainda sintam o peso da inflação anterior, especialmente no custo de vida e moradia, ele enfatiza que os preços, embora em patamares mais altos, voltaram a se comportar de forma estável.
Essa estabilidade, segundo o diretor, deveria ser o principal balizador para as ações do Fed. Ignorar essa nova realidade e manter uma política monetária que não reflete a desaceleração da inflação pode, na sua visão, frear desnecessariamente a economia. A consequência direta seria uma redução na atividade empresarial, levando a demissões em massa e um aumento do desemprego, um cenário que o Federal Reserve tradicionalmente busca evitar, dado seu duplo mandato de estabilidade de preços e emprego máximo. A divergência de Miran sublinha uma tensão interna sobre como interpretar os dados econômicos atuais e qual o melhor caminho para guiar a economia através de um período de transição pós-inflacionária.
A defesa de uma flexibilização mais rápida
A argumentação de Stephen Miran não se limita apenas a criticar a postura atual, mas propõe uma alternativa clara: um ritmo mais acelerado na flexibilização das políticas monetárias. Ele sugere que tal abordagem permitiria ao banco central norte-americano aproximar-se, de maneira mais adequada e eficiente, de uma “posição neutra”. Uma política monetária neutra é aquela que não estimula nem restringe o crescimento econômico, operando em um ponto onde a inflação está sob controle e o emprego se mantém em níveis saudáveis, sem pressões excessivas.
Miran defende que o momento atual, com a inflação demonstrando sinais claros de arrefecimento, é propício para tal movimento. Ao flexibilizar as políticas mais rapidamente, o Fed poderia evitar um “overshooting” da restrição, ou seja, impedir que a política monetária se torne excessivamente apertada a ponto de sufocar a atividade econômica e gerar uma recessão. Ele acredita que a cautela excessiva pode ser tão prejudicial quanto a imprudência. A transição para uma postura neutra mais rapidamente não apenas aliviaria a pressão sobre as empresas e os consumidores, mas também sinalizaria ao mercado a confiança do Fed na trajetória descendente da inflação, potencialmente ancorando as expectativas de preços futuros em um patamar mais baixo e estável. Esta é uma proposta que, se adotada, poderia ter um impacto significativo na trajetória econômica do país nos próximos meses.
Análise da inflação: habitação e tarifas
A análise de Stephen Miran sobre a inflação vai além dos números gerais, aprofundando-se nos componentes específicos que, segundo ele, são frequentemente mal interpretados. Sua visão desafia a percepção comum sobre as causas e a persistência de certos aumentos de preços, especialmente nos setores de habitação e bens essenciais, que têm sido pontos de grande preocupação para as famílias e formuladores de políticas.
Desmistificando a inflação imobiliária
Um dos pilares da argumentação de Miran para uma política monetária mais flexível reside em sua interpretação da inflação no setor imobiliário. Para o diretor do Fed, os atuais índices elevados de inflação imobiliária não são um reflexo de desequilíbrios atuais entre oferta e demanda na economia. Em vez disso, ele argumenta que esses números são um efeito tardio, ou “lagged effect”, de desequilíbrios ocorridos no passado, particularmente durante e imediatamente após a pandemia, quando houve um pico de demanda e interrupções na cadeia de suprimentos que afetaram a construção e a disponibilidade de moradias.
Miran projeta uma queda mais acentuada da inflação medida pelo Índice de Despesas de Consumo Pessoal (PCE) no setor imobiliário nos próximos períodos. O PCE é a medida de inflação preferida do Federal Reserve e, ao focar na sua componente imobiliária, o diretor aponta para uma dinâmica que já estaria em processo de correção natural. Mais importante, ele pondera que, se os números deste segmento fossem excluídos da análise e outros fatores do mercado considerados, a inflação subjacente – ou seja, a inflação que remove os componentes mais voláteis para dar uma visão mais clara da tendência de preços – ficaria abaixo de 2,3%. Este patamar está significativamente mais próximo da meta de 2% do Fed, ficando dentro da “margem de erro da meta”, o que para Miran, anula a necessidade de uma política monetária tão restritiva. Sua análise sugere que o Fed está reagindo a dados defasados, o que poderia levar a uma super-reação e prejuízos desnecessários à economia real.
A controvérsia das tarifas sobre os bens essenciais
Além da inflação imobiliária, Stephen Miran também abordou a questão das tarifas e seu suposto impacto nos preços dos bens essenciais. Ele ressaltou que as evidências que ligam diretamente a política tarifária ao aumento dos preços de bens essenciais são “contraditórias”. Esta é uma afirmação que contesta uma narrativa comum de que as tarifas de importação são um fator-chave na elevação do custo de vida.
O diretor do Fed argumenta que, se as tarifas fossem o principal fator por trás da inflação recente nos bens, seria lógico esperar que os produtos essenciais com alta demanda por importações – ou seja, aqueles que são mais dependentes de cadeias de suprimentos globais e, portanto, mais suscetíveis a impostos de importação – apresentassem uma inflação substancialmente maior em comparação com outros bens. No entanto, Miran observa que essa correlação não é tão clara ou tão forte quanto se poderia esperar. Essa inconsistência o leva a questionar o verdadeiro peso das tarifas na dinâmica inflacionária geral. Ao sugerir que existem outras forças mais dominantes atuando sobre os preços dos bens, Miran expressa otimismo em relação às perspectivas de preços futuros para esses itens. Sua análise implica que a remoção ou ajuste de tarifas, embora possa ter algum impacto, não resolveria por si só a questão da inflação, e que as pressões sobre os preços de bens essenciais podem ser mais complexas e multifacetadas do que uma simples equação tarifária.
Perspectivas econômicas e o futuro da política do Fed
As perspectivas econômicas apresentadas por Stephen Miran desafiam a narrativa predominante de que o Federal Reserve deve manter uma postura hawkish por mais tempo. Ele adverte que o custo de uma política monetária excessivamente restritiva é tangível e se manifestará diretamente na perda de empregos e na desaceleração econômica, em vez de apenas conter uma inflação que, em sua visão, já está em declínio. A sua análise detalhada sobre a inflação imobiliária, vista como um reflexo de desequilíbrios passados, e a contestação do impacto das tarifas nos preços dos bens, fundamentam seu argumento de que o cenário inflacionário atual é mais benigno do que muitos de seus colegas podem acreditar.
As implicações de sua posição são significativas para o futuro da política do Fed. A adesão a uma postura mais restritiva, baseada em interpretações de inflação que Miran considera desatualizadas ou incorretas, arrisca não apenas uma recessão desnecessária, mas também um afastamento do mandato de emprego máximo do banco central. A flexibilização acelerada, por outro lado, poderia permitir que a economia alcançasse uma “posição neutra” mais rapidamente, minimizando o risco de “aterragem brusca”. O debate interno no Fed, evidenciado pelas declarações de Miran, ressalta a complexidade de navegar na economia pós-pandemia, com diferentes membros ponderando o risco de subestimar a inflação versus o risco de sufocar o crescimento. As próximas reuniões do comitê de política monetária serão cruciais para determinar se a visão de Miran ganhará mais força ou se a cautela prevalecerá, moldando assim o destino da economia americana.
Perguntas frequentes
Quem é Stephen Miran e qual a sua principal preocupação em relação à política do Fed?
Stephen Miran é um diretor do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano. Sua principal preocupação é que a manutenção de uma política monetária “desnecessariamente restritiva” leve a uma perda significativa de empregos, argumentando que os preços já estão estáveis.
Qual a visão de Miran sobre a inflação imobiliária e sua relação com a política monetária?
Miran acredita que os altos índices de inflação imobiliária são um reflexo de desequilíbrios anteriores, e não atuais, entre oferta e demanda. Ele prevê uma queda mais acentuada da inflação PCE no setor imobiliário e sugere que, excluindo esse segmento, a inflação subjacente estaria próxima da meta do Fed.
Por que Stephen Miran sugere uma flexibilização mais rápida da política monetária?
Miran defende uma flexibilização mais rápida para aproximar o Fed de uma “posição neutra” de forma adequada. Ele argumenta que os preços estão estáveis, e uma política mais ágil evitaria sufocar a economia e preservar empregos desnecessariamente.
Qual o impacto da política tarifária sobre os preços dos bens essenciais, segundo Miran?
Miran ressalta que as evidências de que a política tarifária coincide com o aumento dos preços dos bens essenciais são “contraditórias”. Ele sugere que, se as tarifas fossem o principal fator, bens com alta demanda por importações deveriam apresentar uma inflação substancialmente maior, o que ele não observa de forma conclusiva.
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Fonte: https://www.infomoney.com.br