A Prefeitura de São Paulo, através do Procon Paulistano, formalizou uma notificação às empresas Uber e 99, exigindo esclarecimentos detalhados sobre as recentes e significativas elevações nos preços das corridas de aplicativo registradas na capital paulista. Usuários têm relatado um aumento alarmante nos valores, com algumas viagens quase triplicando de custo durante o mês de dezembro. Este movimento da administração municipal visa proteger os direitos dos consumidores diante de uma precificação dinâmica que, para muitos, se tornou desproporcional. A ação do Procon Paulistano destaca a preocupação com a transparência e a modicidade tarifária, princípios fundamentais estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor, na busca por uma justificativa técnica e econômica para tais aumentos nos preços de viagens.
Ação do Procon Paulistano contra práticas tarifárias
O Procon Paulistano, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Justiça da Prefeitura de São Paulo, tomou a iniciativa de notificar formalmente as gigantes do transporte por aplicativo, Uber e 99, após uma avalanche de queixas de usuários sobre aumentos abruptos nos valores das corridas. A principal preocupação reside na possibilidade de que esses aumentos, sem uma justificativa clara e proporcional, caracterizem uma prática abusiva de mercado. A gestão municipal ressaltou que a imposição de preços desproporcionais, desprovida de embasamento técnico ou econômico transparente, pode ferir diretamente a legislação consumerista brasileira.
A base legal da contestação
A atuação do Procon Paulistano fundamenta-se solidamente no Código de Defesa do Consumidor (CDC), em particular no seu artigo 6º. Este artigo estabelece direitos básicos do consumidor, incluindo a proteção contra práticas abusivas no fornecimento de produtos e serviços. Segundo o Procon, a conduta das plataformas de aplicativo, ao registrar aumentos expressivos e potencialmente injustificados, viola os princípios de transparência na precificação, modicidade tarifária e a boa prestação de serviços. A modicidade tarifária refere-se à ideia de que os preços devem ser justos e acessíveis, sem impor ônus excessivos ao consumidor. A falta de justificativa para picos tarifários levanta dúvidas sobre a equidade na relação de consumo. As empresas receberam um prazo de dez dias para apresentar suas justificativas e esclarecimentos, sob pena de incorrer em sanções administrativas.
As exigências do Procon às plataformas
A notificação emitida pelo Procon Paulistano não é genérica, mas sim um documento que exige respostas específicas e detalhadas das plataformas Uber e 99. O objetivo é compreender a fundo os mecanismos de precificação utilizados e garantir que os direitos dos consumidores sejam respeitados. As perguntas formuladas buscam dissecar as políticas de preços das empresas, especialmente aquelas relacionadas à precificação dinâmica, que é o cerne da controvérsia.
As exigências são as seguintes:
1. Justificativa técnica e econômica para a precificação dinâmica: O Procon quer entender quais são os algoritmos, os dados em tempo real e os componentes de custo que embasam as variações de preços. Uma explicação clara sobre como o sistema funciona e por que resulta em determinados valores é crucial.
2. Medidas para prevenir preços abusivos em alta demanda: Embora a precificação dinâmica seja um modelo de negócio das plataformas, o Procon questiona se existem mecanismos internos para evitar que essa dinâmica resulte em valores excessivos e desproporcionais, mesmo em momentos de grande procura por serviços.
3. Existência de teto tarifário, seu valor e aplicação: É fundamental saber se há um limite máximo para os preços das corridas e, em caso afirmativo, qual é esse teto e como ele é aplicado e comunicado aos usuários. Isso poderia evitar a sensação de que os preços podem subir infinitamente.
4. Como e quando a política de preços é informada ao consumidor: A transparência é um pilar do CDC. O Procon deseja saber de que forma e em que momento o consumidor é informado sobre a política de precificação, as variações e os fatores que as influenciam, seja nos termos de serviço ou nas notificações dentro do aplicativo.
5. Mecanismos internos para garantir modicidade e evitar vantagens desproporcionais: As empresas devem demonstrar que possuem controles internos e auditorias para assegurar que os preços praticados sejam razoáveis e não resultem em uma vantagem manifestamente excessiva para as plataformas em detrimento dos usuários.
Consequências do não cumprimento
O não atendimento às exigências do Procon Paulistano dentro do prazo estabelecido de dez dias pode acarretar sérias consequências para as plataformas. O Código de Defesa do Consumidor prevê uma série de penalidades administrativas que podem ser aplicadas em casos de descumprimento, desrespeito à legislação ou prática abusiva. Entre as sanções possíveis estão a aplicação de multas, que podem ter valores significativos, a suspensão temporária das atividades das empresas na capital paulista ou a proibição de comercialização de determinados serviços. Além disso, outras medidas corretivas podem ser impostas para garantir a adequação das práticas comerciais às normas de proteção ao consumidor.
Respostas das plataformas e o dilema da precificação dinâmica
Diante da notificação do Procon Paulistano, tanto a Uber quanto a 99 apresentaram suas primeiras manifestações sobre a questão, reiterando suas posições já conhecidas sobre o funcionamento da precificação dinâmica. Ambas as empresas atribuem os aumentos observados à lei da oferta e demanda, um conceito central em seus modelos de negócio.
A visão da Uber sobre a demanda e oferta
A Uber Brasil explica que o sistema de precificação dinâmica é ativado quando a demanda por corridas supera significativamente a oferta de motoristas parceiros disponíveis em uma determinada área. O objetivo, segundo a empresa, é equilibrar o sistema: ao elevar temporariamente o preço, a plataforma busca incentivar mais motoristas a se deslocarem para essas regiões e, assim, atender à demanda crescente. A empresa reforça que o valor final da viagem é sempre informado ao usuário no momento da solicitação, antes da confirmação, e que os preços retornam ao normal assim que a oferta de veículos aumenta e o equilíbrio é restabelecido. Este mecanismo é apresentado como essencial para garantir a disponibilidade do serviço em horários de pico ou em áreas de alta procura.
A abordagem da 99 e fatores externos
A 99, por sua vez, adota uma explicação semelhante, destacando que o cálculo do valor da corrida leva em consideração uma série de fatores interligados. Além da distância percorrida e do tempo estimado de viagem, a plataforma considera a oferta e a demanda em cada região específica. A 99 também salienta a influência de fatores externos, como o trânsito intenso, condições climáticas adversas como chuva e os picos de pedidos em determinados horários ou dias. A empresa descreve seu sistema de precificação como uma “equação dinâmica” que visa manter o serviço em funcionamento e balanceado, assegurando que motoristas e passageiros tenham suas necessidades atendidas de forma eficiente.
O impacto nos consumidores e o futuro da regulação
O embate entre a Prefeitura de São Paulo e as plataformas de transporte por aplicativo ilustra o complexo dilema da precificação dinâmica e seu impacto direto nos consumidores. Enquanto as empresas defendem a necessidade de um sistema flexível para equilibrar oferta e demanda, os usuários, como no exemplo da corrida dos Jardins à Mooca que saltou de R$ 35 para R$ 95, sentem no bolso a falta de transparência e a dificuldade em prever os custos. A ação do Procon Paulistano ressalta a importância da proteção consumerista em um cenário onde a tecnologia avança rapidamente, muitas vezes à frente da regulamentação. O desfecho desta notificação poderá estabelecer precedentes importantes para a forma como os serviços de transporte por aplicativo operam em grandes centros urbanos, reforçando a necessidade de maior clareza, modicidade e justiça na aplicação de suas políticas de preços. Este é um passo crucial para garantir que a inovação não comprometa os direitos fundamentais do consumidor.
Perguntas frequentes (FAQ)
Por que a Prefeitura de São Paulo notificou Uber e 99?
A Prefeitura de São Paulo, por meio do Procon Paulistano, notificou Uber e 99 devido a relatos de aumentos expressivos e potencialmente abusivos nos preços das corridas de aplicativo, especialmente em dezembro. O órgão busca esclarecimentos sobre as justificativas técnicas e econômicas para essa precificação, visando proteger os direitos dos consumidores.
Quais são as exigências do Procon Paulistano para as plataformas?
O Procon Paulistano exige que as empresas apresentem justificativas técnicas e econômicas para a precificação dinâmica, detalhem as medidas para prevenir preços abusivos, informem sobre a existência e aplicação de tetos tarifários, expliquem como a política de preços é comunicada ao consumidor e descrevam os mecanismos internos para garantir modicidade e evitar vantagens desproporcionais.
O que acontece se Uber e 99 não responderem à notificação?
Caso Uber e 99 não respondam à notificação no prazo de dez dias ou se as respostas forem consideradas insatisfatórias, o Procon Paulistano pode aplicar sanções administrativas previstas no Código de Defesa do Consumidor, como multas, suspensão temporária de atividades ou outras penalidades cabíveis.
Como a precificação dinâmica funciona, segundo as empresas?
Segundo Uber e 99, a precificação dinâmica é um sistema que ajusta os valores das corridas em tempo real com base na oferta e demanda. Quando a demanda é alta e a oferta de motoristas é baixa, os preços sobem para incentivar mais parceiros a se deslocarem, equilibrando o sistema. Fatores como distância, tempo, trânsito e condições climáticas também influenciam o valor final.
Acompanhe as atualizações sobre este caso e seus direitos como consumidor de serviços de transporte por aplicativo, garantindo que a justiça prevaleça na sua próxima viagem.
Fonte: https://www.infomoney.com.br