Imagine utilizar o celular diariamente, navegar nas redes sociais, solicitar comida por aplicativos e assistir a vídeos. A aparente conexão, no entanto, pode ser ilusória. O grande problema da atualidade não reside em estar desconectado, mas sim em estar conectado sem compreender a lógica subjacente a esse ambiente.
No contexto da inteligência artificial (IA), essa questão se torna ainda mais evidente. Profissionais que ignoram a IA, mesmo sem perceber, cedem o controle de suas escolhas. Eles disponibilizam informações sobre suas carreiras para algoritmos que, muitas vezes, não os compreendem adequadamente ou sequer os avaliam de forma completa. Essa é a essência do novo analfabetismo digital.
Cerca de metade das pessoas relata não entender a IA, mesmo utilizando intensamente serviços digitais. Essa combinação de uso constante com baixa compreensão é perigosa. Torna os indivíduos vulneráveis a manipulações sutis, decisões automáticas e, frequentemente, equivocadas, além de possibilitar vieses “ocultos”.
O conceito tradicional de alfabetização digital, focado em habilidades como navegar em sites, usar aplicativos, produzir conteúdo básico e proteger senhas, já se mostra insuficiente.
A nova fronteira reside na alfabetização em inteligência artificial: entender, ainda que conceitualmente, o papel de dados, algoritmos, modelos preditivos, vieses, métricas de acurácia e limites das máquinas. Esse vocabulário influencia decisões sobre crédito, oportunidades de emprego, notícias exibidas em mídias sociais, ofertas de consumo, segurança pública e até a interação com o Estado.
A pessoa alfabetizada em IA não precisa se tornar um especialista técnico, mas adquire a capacidade de questionar, exigir transparência e recusar a posição de mero objeto de cálculo.
O contraste entre a rápida adoção da IA e a baixa compreensão se reflete nos números. Estudos recentes mostram um crescimento expressivo no uso de IA pelas organizações. A tecnologia já opera como uma infraestrutura discreta em negócios, serviços e governos. O mundo corporativo avança, enquanto cidadãos e trabalhadores carecem de instrumentos para interpretar como essas soluções afetam seus dados e seus destinos.
O Brasil ilustra bem o novo analfabetismo digital. Uma pesquisa recente do IBGE revelou que a grande maioria da população utiliza a internet, mas uma parcela significativa permanece à mercê da lógica das plataformas, sem domínio crítico. As desigualdades sociais acentuam essa problemática. O acesso à internet varia significativamente entre pessoas sem instrução e aquelas com ensino superior.
Quando a IA se torna onipresente sobre essa base desigual, a assimetria de informação transforma a pobreza educacional em pobreza de autonomia diante dos algoritmos.
A alfabetização em IA envolve um conjunto de competências práticas. Inclui a compreensão básica de como os dados alimentam os modelos, a capacidade de questionar padrões excessivamente personalizados em feeds e recomendações, a leitura atenta de políticas de privacidade e termos de uso, e a compreensão de que vieses presentes em dados históricos tendem a se reproduzir em decisões algorítmicas, afetando principalmente grupos historicamente discriminados.
As organizações têm uma responsabilidade crescente. Empresas, governos e instituições de ensino com acesso a especialistas em IA precisam investir em programas de formação voltados ao público em geral, indo além das tradicionais ações de marketing.
A transparência sobre o uso da IA em processos de seleção, concessão de crédito, definição de tarifas e moderação de conteúdo não é uma ameaça competitiva, mas sim um compromisso mínimo com a cidadania digital.
A nova divisão digital se estabelece entre aqueles que compreendem a IA e aqueles que apenas vivem dentro dela. De um lado, cidadãos capazes de questionar, exigir explicações, recusar usos abusivos, e demandar regulação e transparência. De outro, pessoas que atribuem ao destino decisões tomadas por modelos probabilísticos, que confundem desinformação sintética com opiniões legítimas, e que veem sua autonomia diminuir em meio a notificações e sugestões persuasivas.
O novo analfabetismo digital não é inevitável, mas sim resultado de escolhas. Governos que negligenciam políticas de educação em IA, empresas que veem a transparência como uma ameaça e sistemas de ensino que hesitam em atualizar seus currículos reforçam a desigualdade entre quem controla a tecnologia e quem apenas a consome.
A alfabetização em inteligência artificial deve ser tão prioritária quanto a leitura e a escrita. Sem isso, as pessoas podem até ler contratos, mas não entender que algoritmos já definiram seus limites de crédito; podem navegar em feeds, mas não perceber que cada rolagem alimenta um modelo; podem votar, mas não distinguir vozes humanas de vozes clonadas.
A IA é a infraestrutura da vida no século XXI. Se a alfabetização em IA for tratada como um direito universal, a autonomia será preservada. Caso contrário, estaremos sujeitos à tutela algorítmica. Ignorar a inteligência artificial significa transformar a própria liberdade em uma variável de cálculo para outros. A defesa da cidadania requer educação, regulação e transparência. Sem esses pilares, o analfabetismo digital prevalecerá, transformando-nos em meros espectadores das decisões que moldam o nosso futuro.
Fonte: www.tecmundo.com.br