No coração do Piauí, a memória de Esperança Garcia, mulher negra escravizada no século XVIII, ressurge como um farol de esperança e um símbolo poderoso na luta por direitos e igualdade. Reconhecida tardiamente, em 2022, como a primeira advogada do Brasil pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sua história ecoa através dos séculos, moldando a consciência negra e inspirando gerações.
Esperança Garcia viveu em Oeiras e, após ser separada de seus filhos e marido, ousou desafiar o sistema escravocrata ao denunciar as violências sofridas em uma carta endereçada ao então governador do Piauí. Esse documento, redescoberto em 1979 no Arquivo Público do Piauí, é considerado por juristas e historiadores como uma petição, devido à sua estrutura e conteúdo que apresentam elementos jurídicos claros. A carta expressa a dor da separação familiar e os abusos físicos sofridos, clamando por justiça e pelo direito de retornar ao convívio de seus entes queridos.
Apesar da incerteza sobre se seu pedido foi atendido, o impacto de seu gesto transcende o tempo. Andreia Marreiro, pesquisadora e doutoranda em direitos humanos e cidadania, destaca que Esperança Garcia personifica a resistência contra o colonialismo, o racismo e o sexismo. Sua voz, erguida em um período de escravidão legalizada, a estabelece como sujeito de direitos, desafiando as autoridades a reconhecerem sua humanidade.
A história de Esperança Garcia, entretanto, ainda enfrenta desafios para ser plenamente integrada ao currículo escolar. A pesquisadora Andreia Marreiro enfatiza a importância de preencher essa lacuna, destacando a necessidade de contar a história do Brasil e do Piauí pelas perspectivas dos povos negros e indígenas, revelando a verdade sobre a escravidão e reconhecendo Esperança como uma das vozes silenciadas por tanto tempo.
Para Santiago Belizário, estudante de história e coordenador da Frente Negra Revolucionária no Piauí, o resgate da memória de Esperança Garcia é essencial para fortalecer a identidade do povo negro. Ele a enxerga como um espelho dos piauienses e brasileiros negros que persistentemente lutam por transformações sociais, econômicas e culturais.
Belizário ressalta que Esperança Garcia é um símbolo de autoestima e consciência racial, especialmente para jovens negros de baixa renda e pouca escolaridade. Ele também chama a atenção para a importância de manter os avanços conquistados pelo movimento negro, como a Lei de Cotas e a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileiras nas escolas.
Em Teresina, o Memorial Esperança Garcia, dedicado a eventos que celebram a cultura de matrizes africanas, homenageia diversas personalidades negras, incluindo nomes piauienses de destaque, assim como figuras internacionais como Bob Marley, Nelson Mandela e Martin Luther King. Recentemente, o espaço passou por uma reforma e modernização, com investimentos significativos para aprimorar sua estrutura e equipamentos.
Fonte: g1.globo.com